Bel Pesce, a polarização e as redes sociais.

capa-rafa
Vida profissional | 14 de setembro de 2016 |

Se esperam mais um texto descascando a Bel, ou a defendendo piamente, não será isso que vão encontrar abaixo.

Ouvi falar da Bel há alguns anos, menina, jovem, tida como uma das pessoas mais influentes do país. Tudo isso se torna ainda mais relevante se levamos em consideração o impacto sobre aqueles de sua geração. Quando ouvi sobre “a menina do vale” procurei conhecer um pouco mais sobre ela, e confesso que, pessoalmente, o tipo de figura empreendedora, desse quase show business, motivacional, que lembra palestra de empresas de grande escala de venda direta (e/ou das tantas outras deste ramo que nem existem mais por serem consideradas pirâmides financeiras), não me atrai muito, não consigo absorver muito conteúdo, mas lembro de algumas coisas que ficaram na minha cabeça, como os 4/5 diplomas, ou a criação de diversas empresas.

Nesse período, de 2012, provavelmente, até aqui, voltei a ver Bel estampando revistas, dando entrevistas, aparecendo em vídeos e tudo mais por diversas vezes. Não cliquei na maioria delas. Até que no mês de Agosto de 2016 explode uma onda de acusações, julgamentos e afirmações que tiverem como cerne um crowdfunding (ferramenta para arrecadação de investimento coletivo) de uma sociedade da moça com outros dois rapazes, um blogueiro gastronômico e o recém-vencedor do programa culinário Masterchef.

Ok, o financiamento coletivo tende, como premissa ou até mesmo censo comum, a ser para um fim coletivo também (projetos sociais, culturais ou artísticos), e o empreendimento do trio, uma hamburgueria gourmet, não passa tanto essa visão, ainda mais com a quantidade de estabelecimentos do tipo que temos na cidade de São Paulo. Essa, talvez, tenha sido a maior falta de tato do grupo, que gerou uma explosão de críticas, memes, piadas e, com mais força ainda, a superexposição da Bel.

Não vou nem entrar no mérito da misoginia, mas consideremos que, dentre os 3 sócios, Bel é a que tinha o maior currículo, histórico de holofotes e tudo mais, e a bomba veio certeira em cima da menina dos multidiplomas.

Foram atrás pra saber se Bel realmente se formou, em que se formou, porque ela chamava os minors, que ela teve no MIT, de diploma, se ela chamava realmente de diploma, quais empresas ela fundou, quais deram certo, quais não deram, e o porquê dela ter dito cada uma das coisas que disse. A Bel, em horas, foi de influenciadora de uma geração para uma vilã.

Para mim, mais importante do que a demonização da menina do Vale, é o quanto nossa sociedade está polarizada. O que vimos nas eleições de 2014, e seguimos vendo na política e em tantas outras coisas na nossa sociedade, que é essa quase futebolização (o que já é bizarro) de todas as esferas e instituições em que vivemos, em que se você aborda tais pautas você é de esquerda, se não, de direita, mas, e se eu for indiferente? Não importa. Para um lado você sempre vai estar flertando com o outro. Os veículos de comunicação são exemplos práticos disso. Pra um lado ele sempre está a favor do outro, simplesmente por flertar, em boa parte dos casos, com a imparcialidade.

Esse cenário faz com que todos tenham que assumir um lado, demonstrar conhecimento e mostrar qual bandeira está hasteando, independente de ter conteúdo e profundidade sobre o assunto. Isso faz com que tenhamos especialistas de headlines, pessoas que nem se quer se dão ao trabalho de clicar em uma matéria, ler o conteúdo, antes de publicar. Vejo que esse comportamento levou Bel ao céu, ninguém se preocupou em verificar o currículo, a veracidade dela ao compartilhar seus vídeos, TEDs, entrevistas, ao dar espaço pra ela na TV, em uma revista. A fugacidade faz com que tenhamos que criar essas personagens e reforçá-las e encorpá-las sem a necessidade de mostrar a profundidade dela. Cria-se o mito.

Esse mesmo comportamento levou-a, agora, ao inferno. Baseado em opiniões de outros, pesquisas de outros, achismos de outros, veio uma onda, às vezes de uma mesma pessoa que outrora a endeusou, pra coloca-la no fundo do poço, o mito virou um charlatão. Sem importar que ela é uma pessoa, que tem erros, acertos, muda de opinião, mas que não pode nem ter o direito de se arrepender mais.

Para Bel, e tantos outros fenômenos que despontaram graças, ou com a ajuda, das redes sociais, fica a lição de se preparar e lembrar que tudo o que se posta, se fala, se escreve, nas eras digitais, fica documentado. Pô, quem nunca sentiu vergonha daquela foto do fotolog lá de quando você tinha 15 anos e achou que estava apagada, deletada e seu crush descobriu quando jogou seu nome no google.

Você aceitar uma pequena mentira, ou engrandecer um fato, pode virar uma bola de neve. Aquilo que você falou, e nem lembra, em algum momento pode, e vai, vir à tona. É muito importante você pensar duas vezes quando vai se posicionar em assuntos polêmicos, e sempre lembrar nas contrapartidas e, principalmente, estar preparado pra elas, seja como pessoa física, seja como empresa. Você pode voltar, talvez até mais forte, mas também pode ter a imagem ou a marca destruída.

A Bel… ela vai continuar sendo a Bel. Independente de majors ou minors, a menina tem um currículo invejável. E provar do “veneno” da sociedade binária talvez a faça ainda mais forte, talvez com menos holofotes, mas provavelmente com mais solidez e conteúdo do que a Bel de 2012.

Continuar Lendo

Recomendados para você

Comentários

Newsletter
Carregando...